valor sentimental

,

Uma casa no cinema nunca é só uma casa.

Em Valor sentimental, filme mais recente de Joachim Trier, a casa da família Borg é a personagem central da história. Mais do que cenário, ela atua como espectadora.

Obrigada por ler esta newsletter. Se ainda não assina, inscreva-se para ficar por dentro dos próximos encontros do cineclube.

Quem nos apresenta à casa é Nora, a filha mais velha, através de uma redação escolar que escreve pelos olhos da própria casa, como se ela observasse a família, desde a sua formação até a sua separação.

Quando o pai vai embora após o divórcio, a casa perde vida. Uma rachadura na parede representa a ruína daquela família e todos os traumas que a casa testemunhou ao longo de gerações.

Nessa mesma casa viveram os tataravós, bisavós e avós de Nora e Agnes. Vemos o tempo passar através dos seus cômodos e das suas janelas.

É na casa que também acontece o funeral da mãe delas, o momento de reencontro entre pai e filhas anos mais tarde.

Gustav é um homem difícil que sempre viveu a vida nos seus próprios termos. Seu retorno é marcado por conflitos entre ele e as filhas, expondo feridas que nunca cicatrizaram.

O motivo da sua volta é o roteiro de um filme que escreveu pensando em Nora como protagonista. Esse talvez seja o último filme da sua carreira como diretor.

Quando apresenta o roteiro a Nora, ela recusa, dizendo que eles não podem trabalhar juntos já que sequer conseguem conversar.

A falta de comunicação sempre foi um obstáculo nessa família. Antes de Gustav nascer, sua mãe foi presa e torturada por propaganda antinazista, um trauma sobre o qual nunca conseguiu falar. O silêncio então passa a ser uma herança familiar.

O cinema foi a linguagem que Gustav encontrou para elaborar essa dor. Ainda assim, ele insiste em dizer que o filme não é sobre a mãe. É também sobre Nora. E sobre ele mesmo.

Por mais que tenha sido um pai ausente, Gustav se reconhece profundamente em Nora. O filme que está empenhado em realizar é, na verdade, uma tentativa tardia de dizer à filha aquilo que nunca conseguiu colocar em palavras.

Curtiu este artigo?

Inscreva-se para receber os artigos mais recentes diretamente no seu e-mail

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *