léxico familiar

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Léxico familiar de Natalia Ginzburg foi o livro que escolhi para dar início ao ano de 2026 no clube do livro que organizo. Foi também a minha primeira leitura do ano.

No ano de 2024, eu li As pequenas virtudes, livro de ensaios da autora, e fiquei com vontade de ler outros livros dela de não ficção.

Em Léxico familiar, Natalia reconta a vida da sua família entre os anos 1930 e 1950, em Turim, na Itália. O fio condutor é o “léxico” peculiar de piadas, bordões e expressões usados pelos seus familiares.

Por ser a filha caçula, Natalia apenas narra os fatos como observadora. Ela não romantiza nem julga a família, fazendo uso de uma linguagem simples. Sem sentimentalismos, a autora escreve para preservar a memória dos seus pais e irmãos.

Com a ascensão do fascismo e a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo, a autobiografia revela como a história coletiva da Itália se infiltra na intimidade familiar.

Trechos preferidos

“Somos cinco irmãos. Moramos em cidades diferentes, alguns de nós estão no exterior: e não nos correspondemos com frequência. Quando nos encontramos, podemos ser, um com o outro, indiferentes ou distraídos. Mas, entre nós, basta uma palavra. Basta uma palavra, uma frase: uma daquelas frases antigas, ouvidas e repetidas infinitas vezes, no tempo de nossa infância. Basta-nos dizer: ‘Não viemos a Bergamo para nos divertir’ ou ‘Do que é que o ácido sulfídrico tem cheiro’, para restabelecer de imediato nossas antigas relações, nossa infância e juventude, ligadas indissoluvelmente a essas frases, a essas palavras. Uma dessas frases ou palavras faria com que nós, irmãos, reconhecêssemos uns aos outros na escuridão de uma gruta, entre milhões de pessoas. Essas frases são o nosso latim, o vocabulário de nossos tempos idos é como os hieróglifos dos egípcios ou dos assírio-babilônicos, o testemunho de um núcleo vital que deixou de existir, mas que sobrevive em seus textos, salvos da fúria das águas, da corrupção do tempo.”


“Nós achávamos que a guerra iria virar e revirar imediatamente a vida de todos. Durante anos, ao contrário, muita gente permaneceu sem ser incomodada em sua casa, continuando a fazer o que sempre fizera. De repente, quando cada um já achava que no fundo se livrara por pouco e não haveria nenhum transtorno, nem casas destruídas, nem fugas ou perseguições, explodiram bombas e minas por toda parte e as casas desabaram, as ruas se encheram de ruínas, de soldados e de fugitivos. E não havia mais ninguém que pudesse fingir que nada estava acontecendo, fechar os olhos e tapar os ouvidos, enfiar a cabeça embaixo do travesseiro, não havia.”

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